sexta-feira, junho 26, 2026

Tu

Tu és sombra
no corpo sólido da manhã

Um sopro breve
que não se fixa

Tu és ausência
no ruído surdo da pele

Um instante só
que permanece.

Macau, 26 de Junho de 2026

segunda-feira, junho 22, 2026

Cofiando o bigode

Cofio o bigode devagar
como quem acaricia a manhã
há um sopro de sol
a pousar nos dedos

o gesto é simples
mas guarda segredos antigos
um rumor de infância
um riso perdido no vento

cofiar o bigode
é tocar o silêncio
é sentir que a vida
se resume a este instante
onde tudo se abre
numa ternura breve.

Macau, 22 de Junho de 2026

segunda-feira, junho 15, 2026

A mentira

a mentira é anterior à palavra
nasce no silêncio que quer ser nome
e não sabe ainda o que é dizer

talvez seja o primeiro gesto da consciência
quando o homem se viu ao espelho da água
e acreditou que o reflexo era outro

a mentira é o intervalo entre o que somos
e o que suportamos ser
é o espaço onde a verdade se recolhe
para não morrer de exatidão

há mentiras que respiram como deuses cansados
outras que se deitam sobre nós
com a ternura de quem sabe
que a verdade é demasiado nua

no fim, tudo mente:
o tempo, o corpo, a memória,
até o amor que promete eternidade
e esquece o instante seguinte

a mentira é o modo humano de existir
porque só mentindo
o homem suporta saber que é finito.

Macau, 15 de Junho de 2026

sexta-feira, junho 12, 2026

Que nome darias ao chão que pisas?

o chão respira
como sombra

há pó
há silêncio

se lhe deres um nome
deixa de ser chão

torna-se palavra
torna-se ausência

e permanece apenas
nos sussurros das horas.

Macau, 12 de Junho de 2026

quarta-feira, junho 10, 2026

A língua como enigma

a língua não pertence
é ausência de dono

um corpo que se desdobra
em múltiplas geografias
como se cada voz fosse
um fragmento de infinito

não é Portugal
nem Brasil
nem Angola
nem Macau
é todos e nenhum

a palavra portuguesa
não é unidade
é fissura
é pluralidade que insiste
em não se fechar

há nela o paradoxo
de ser comum
e ao mesmo tempo
irrepetível

a língua é filosofia
porque pensa o que não pode dizer
e diz o que não pode pensar

um labirinto de ecos
onde cada sílaba
se torna pergunta
e nunca resposta.

Macau, 10 de Junho de 2026

segunda-feira, junho 08, 2026

Saco roto

o vento atravessa o saco roto
como atravessa a pele do tempo
restos de palavras caem
no chão húmido da memória

há um rumor de passos
que não regressam
um fio de luz
que se desfaz na poeira

imagem de tudo o que se perde
quando o corpo insiste
em guardar o que já não cabe
e a vida se abre
num silêncio gasto.

Macau, 8 de Junho de 2026

quinta-feira, junho 04, 2026

Clivagem

A Liu Xiaobo

rasga-se a noite
como um corpo dividido
entre o desejo e a ruína

há uma fenda no silêncio
onde o sangue escorre lento
e a memória se desfaz em cinzas

clivagem:
palavra que corta a pele
abre feridas na respiração
e deixa o coração suspenso
num abismo de vozes partidas

eu caminho sobre restos
procuro o lume breve
que ainda arde nos ossos
e me lembra
que viver é sempre
um corte profundo.

Macau, 4 de Junho de 2026

quarta-feira, junho 03, 2026

Embaciado

A vidraça respira,
um sopro breve,
e o mundo dissolve-se em névoa.

As linhas da rua,
os rostos que passam,
tornam-se apenas manchas,
como se a memória fosse água
a escorrer devagar.

Embaciado,
o instante não se fixa:
é vapor que se levanta,
é silêncio que se repete,
é o contorno de um gesto
que nunca chega a ser inteiro.

E eu,
diante da superfície turva,
procuro o que resta —
um traço,
um reflexo,
um rumor de luz
que insiste em permanecer.

Macau, 3 de Junho de 2026

quarta-feira, maio 27, 2026

Bruma do tédio

Na névoa roxa do meu tédio vago,
Ai bolas, chove um sonho mal‑dizente;
A alma arrasta-se, trôpega e doente,
Entre suspiros, tretas e um mau fado.

O tempo, esse sacana, lento e amargo,
Rói-me a esperança, diabo persistente;
E eu penso: raios partam o presente,
Que tudo passa e nada fica em pago.

Ó vida, que chatice a tua dança,
Promessas vãs, conversa de tasca,
Um verso torto a rir da desgraça.

E nesta dor que em bruma se balança,
Digo asneiras ao vento que me lasca,
Só para ouvir a noite dar-me troça.

Macau, 24 de Maio de 2026

sexta-feira, maio 22, 2026

Chove em Macau

A Camilo Pessanha

Chove em Macau.
A tarde desfaz-se em cinza lento,
como um pensamento que não chega a ser memória.

Sob o abrigo gasto da paragem,
aguardo pelo autocarro;
eu, e o cansaço antigo das horas.

A chuva cai em fios de silêncio,
bordando o chão de reflexos mortos;
as luzes tremem, pálidas,
como lanternas vistas através de um sonho.

Tudo é espera.
O tempo escorre pelos telhados
e entra-me nos ossos
com uma saudade sem nome.

Passam rostos, sombras molhadas,
ninguém me vê.
Sou apenas mais um intervalo
entre a chuva e o destino.

Ah, Macau…
cidade suspensa entre águas e esquecimento,
onde até o coração aprende
a esperar sem esperança.

O autocarro tarda.
A chuva não.

Macau, 15 de Maio de 2026

quinta-feira, abril 23, 2026

O último jogo

A Vicente Lucas

Na névoa lenta de um campo vazio,
fica suspenso o gesto que não regressa.

A relva, ainda marcada, guarda
o peso leve dos teus passos,
como se o tempo hesitasse em apagar-te.

Vicente, nome que ecoa baixo,
quase sussurro nas bancadas mudas,
onde o azul se torna memória
e o jogo se dissolve em ausência.

Há um silêncio mais denso que a noite,
feito de partidas que não escolhem hora.

E tu, agora distante,
permaneces no instante interrompido,
como uma bola parada
antes do toque final.

Macau, 17 de Abril de 2026

terça-feira, março 17, 2026

Macau não é cidade que se possua

Macau é um interstício do tempo, um palimpsesto vivo onde civilizações se entretecem em silêncio espesso.

Caminho pelas suas vielas como quem pisa sobre pergaminhos, escutando o murmúrio dos séculos que ali repousam, encobertos pela humidade do trópico e pelo labor invisível da memória. As fachadas, tisnadas pela maresia e pelo musgo, não exibem decadência, mas antes um testemunho silencioso de glórias que se recusam ao esquecimento.

Aqui, o Oriente e o Ocidente não se afrontam, antes se enlaçam com a delicadeza de um ritual antigo. Entre o aroma pungente do sândalo e o eco longínquo de um sino colonial, pulsa uma consonância frágil, quase imperceptível, que sustenta a alma da cidade; uma alma feita de contradição e permanência.

Macau expressa-se por entre línguas sobrepostas e símbolos cruzados; não se entrega ao olhar apressado, nem ao espírito superficial. Há nela um carácter litúrgico, uma solenidade sussurrada, como se cada esquina fosse altar e cada sombra um relicário. A sua essência revela-se nos interstícios: no claustro de uma igreja deserta, no interior sombrio de um templo taoista, na caligrafia descorada de uma tabuleta esquecida.

Não é cidade que se possua: é cidade que se consente.

Macau não se oferece ao forasteiro, impõe-lhe o silêncio, exige-lhe demora, convida-o a perder-se para que se possa encontrar.

É metáfora de si própria, um fragmento suspenso entre eras, onde o tempo não escorre, paira.


Macau, 20 de Maio de 2025