segunda-feira, junho 08, 2026

Saco roto

o vento atravessa o saco roto
como atravessa a pele do tempo
restos de palavras caem
no chão húmido da memória

há um rumor de passos
que não regressam
um fio de luz
que se desfaz na poeira

imagem de tudo o que se perde
quando o corpo insiste
em guardar o que já não cabe
e a vida se abre
num silêncio gasto.

Macau, 8 de Junho de 2026

terça-feira, março 17, 2026

Macau não é cidade que se possua

Macau é um interstício do tempo, um palimpsesto vivo onde civilizações se entretecem em silêncio espesso.

Caminho pelas suas vielas como quem pisa sobre pergaminhos, escutando o murmúrio dos séculos que ali repousam, encobertos pela humidade do trópico e pelo labor invisível da memória. As fachadas, tisnadas pela maresia e pelo musgo, não exibem decadência, mas antes um testemunho silencioso de glórias que se recusam ao esquecimento.

Aqui, o Oriente e o Ocidente não se afrontam, antes se enlaçam com a delicadeza de um ritual antigo. Entre o aroma pungente do sândalo e o eco longínquo de um sino colonial, pulsa uma consonância frágil, quase imperceptível, que sustenta a alma da cidade; uma alma feita de contradição e permanência.

Macau expressa-se por entre línguas sobrepostas e símbolos cruzados; não se entrega ao olhar apressado, nem ao espírito superficial. Há nela um carácter litúrgico, uma solenidade sussurrada, como se cada esquina fosse altar e cada sombra um relicário. A sua essência revela-se nos interstícios: no claustro de uma igreja deserta, no interior sombrio de um templo taoista, na caligrafia descorada de uma tabuleta esquecida.

Não é cidade que se possua: é cidade que se consente.

Macau não se oferece ao forasteiro, impõe-lhe o silêncio, exige-lhe demora, convida-o a perder-se para que se possa encontrar.

É metáfora de si própria, um fragmento suspenso entre eras, onde o tempo não escorre, paira.


Macau, 20 de Maio de 2025