quinta-feira, junho 04, 2026

Clivagem

A Liu Xiaobo


rasga-se a noite

como um corpo dividido

entre o desejo e a ruína


há uma fenda no silêncio

onde o sangue escorre lento

e a memória se desfaz em cinzas


clivagem:

palavra que corta a pele

abre feridas na respiração

e deixa o coração suspenso

num abismo de vozes partidas


eu caminho sobre restos

procuro o lume breve

que ainda arde nos ossos

e me lembra

que viver é sempre

um corte profundo.


Macau, 4 de Junho de 2026