A Liu Xiaobo
rasga-se a noite
como um corpo dividido
entre o desejo e a ruína
há uma fenda no silêncio
onde o sangue escorre lento
e a memória se desfaz em cinzas
clivagem:
palavra que corta a pele
abre feridas na respiração
e deixa o coração suspenso
num abismo de vozes partidas
eu caminho sobre restos
procuro o lume breve
que ainda arde nos ossos
e me lembra
que viver é sempre
um corte profundo.
Macau, 4 de Junho de 2026