como sombra
há pó
há silêncio
se lhe deres um nome
deixa de ser chão
torna-se palavra
torna-se ausência
e permanece apenas
nos sussurros das horas.
por Gonçalo Lobo Pinheiro
Macau é um interstício do tempo, um palimpsesto vivo onde civilizações se entretecem em silêncio espesso.
Caminho pelas suas vielas como quem pisa sobre pergaminhos, escutando o murmúrio dos séculos que ali repousam, encobertos pela humidade do trópico e pelo labor invisível da memória. As fachadas, tisnadas pela maresia e pelo musgo, não exibem decadência, mas antes um testemunho silencioso de glórias que se recusam ao esquecimento.
Aqui, o Oriente e o Ocidente não se afrontam, antes se enlaçam com a delicadeza de um ritual antigo. Entre o aroma pungente do sândalo e o eco longínquo de um sino colonial, pulsa uma consonância frágil, quase imperceptível, que sustenta a alma da cidade; uma alma feita de contradição e permanência.
Macau expressa-se por entre línguas sobrepostas e símbolos cruzados; não se entrega ao olhar apressado, nem ao espírito superficial. Há nela um carácter litúrgico, uma solenidade sussurrada, como se cada esquina fosse altar e cada sombra um relicário. A sua essência revela-se nos interstícios: no claustro de uma igreja deserta, no interior sombrio de um templo taoista, na caligrafia descorada de uma tabuleta esquecida.
Não é cidade que se possua: é cidade que se consente.
Macau não se oferece ao forasteiro, impõe-lhe o silêncio, exige-lhe demora, convida-o a perder-se para que se possa encontrar.
É metáfora de si própria, um fragmento suspenso entre eras, onde o tempo não escorre, paira.
Macau, 20 de Maio de 2025
Na vereda de Camões, ressoa a tradição,
Cada
vocábulo uma relíquia, um panteão.
Complexa na
gramática, sublime na sua arte,
A língua
portuguesa, erudita, se aparte.
Nos
labirintos da sintaxe, a história se inscreve,
Tempo e
modos se entrelaçam, onde o espírito concebe.
Sábia na sua
essência, desafiadora no seu ser,
A voz de um
povo antigo, a lutar por entender.
Eis o
português, sinfonia de eras concatenadas,
Nas suas
sílabas, ecos de epopeias celebradas.
Neste idioma
se confundem mitos e verdades,
Uma
tessitura de léxicos, morada de saudades.
É a voz, com
timbre de marejar,
Cada termo um
peso, um legado a honrar.
Intrincada no
seu imo, complexa por devoção,
Nos meandros
gramaticais, descobre-se uma nação.
Que fale o
poeta, que escreva o letrado,
Pessoa,
Sophia ou Ary, cada verso é sagrado.
E na sua
complexidade, uma beleza sem igual,
Português, uma
língua universal.
Macau, 5 de Maio de
2024 - Dia mundial da língua portuguesa
Para comemorar o Dia Mundial da Poesia, um inédito