Chove em Macau.
A tarde desfaz-se em cinza lento,
como um pensamento que não chega a ser memória.
Sob o abrigo gasto da paragem,
aguardo pelo autocarro;
eu, e o cansaço antigo das horas.
A chuva cai em fios de silêncio,
bordando o chão de reflexos mortos;
as luzes tremem, pálidas,
como lanternas vistas através de um sonho.
Tudo é espera.
O tempo escorre pelos telhados
e entra-me nos ossos
com uma saudade sem nome.
Passam rostos, sombras molhadas,
ninguém me vê.
Sou apenas mais um intervalo
entre a chuva e o destino.
Ah, Macau…
cidade suspensa entre águas e esquecimento,
onde até o coração aprende
a esperar sem esperança.
O autocarro tarda.
A chuva não.
Macau, 15 de Maio de 2026






