quarta-feira, junho 03, 2026

Embaciado

A vidraça respira,

um sopro breve,

e o mundo dissolve-se em névoa.


As linhas da rua,

os rostos que passam,

tornam-se apenas manchas,

como se a memória fosse água

a escorrer devagar.


Embaciado,

o instante não se fixa:

é vapor que se levanta,

é silêncio que se repete,

é o contorno de um gesto

que nunca chega a ser inteiro.


E eu,

diante da superfície turva,

procuro o que resta —

um traço,

um reflexo,

um rumor de luz

que insiste em permanecer.


Macau, 3 de Junho de 2026