nasce no silêncio que quer ser nome
e não sabe ainda o que é dizer
talvez seja o primeiro gesto da consciência
quando o homem se viu ao espelho da água
e acreditou que o reflexo era outro
a mentira é o intervalo entre o que somos
e o que suportamos ser
é o espaço onde a verdade se recolhe
para não morrer de exatidão
há mentiras que respiram como deuses cansados
outras que se deitam sobre nós
com a ternura de quem sabe
que a verdade é demasiado nua
no fim, tudo mente:
o tempo, o corpo, a memória,
até o amor que promete eternidade
e esquece o instante seguinte
a mentira é o modo humano de existir
porque só mentindo
o homem suporta saber que é finito.
Macau, 15 de Junho de 2026