sexta-feira, maio 22, 2026

Chove em Macau

Chove em Macau. 

A tarde desfaz-se em cinza lento, 

como um pensamento que não chega a ser memória.


Sob o abrigo gasto da paragem, 

aguardo pelo autocarro; 

eu, e o cansaço antigo das horas.


A chuva cai em fios de silêncio, 

bordando o chão de reflexos mortos; 

as luzes tremem, pálidas, 

como lanternas vistas através de um sonho.


Tudo é espera. 

O tempo escorre pelos telhados 

e entra-me nos ossos 

com uma saudade sem nome.


Passam rostos, sombras molhadas, 

ninguém me vê. 

Sou apenas mais um intervalo 

entre a chuva e o destino.


Ah, Macau… 

cidade suspensa entre águas e esquecimento, 

onde até o coração aprende 

a esperar sem esperança.


O autocarro tarda. 

A chuva não.


Macau, 15 de Maio de 2026