quarta-feira, maio 27, 2026

Bruma do tédio

Na névoa roxa do meu tédio vago,
Ai bolas, chove um sonho mal‑dizente;
A alma arrasta-se, trôpega e doente,
Entre suspiros, tretas e um mau fado.

O tempo, esse sacana, lento e amargo,
Rói-me a esperança, diabo persistente;
E eu penso: raios partam o presente,
Que tudo passa e nada fica em pago.

Ó vida, que chatice a tua dança,
Promessas vãs, conversa de tasca,
Um verso torto a rir da desgraça.

E nesta dor que em bruma se balança,
Digo asneiras ao vento que me lasca,
Só para ouvir a noite dar-me troça.

Macau, 24 de Maio de 2026

sexta-feira, maio 22, 2026

Chove em Macau

A Camilo Pessanha

Chove em Macau.
A tarde desfaz-se em cinza lento,
como um pensamento que não chega a ser memória.

Sob o abrigo gasto da paragem,
aguardo pelo autocarro;
eu, e o cansaço antigo das horas.

A chuva cai em fios de silêncio,
bordando o chão de reflexos mortos;
as luzes tremem, pálidas,
como lanternas vistas através de um sonho.

Tudo é espera.
O tempo escorre pelos telhados
e entra-me nos ossos
com uma saudade sem nome.

Passam rostos, sombras molhadas,
ninguém me vê.
Sou apenas mais um intervalo
entre a chuva e o destino.

Ah, Macau…
cidade suspensa entre águas e esquecimento,
onde até o coração aprende
a esperar sem esperança.

O autocarro tarda.
A chuva não.

Macau, 15 de Maio de 2026