segunda-feira, junho 08, 2026
Saco roto
como atravessa a pele do tempo
restos de palavras caem
no chão húmido da memória
há um rumor de passos
que não regressam
um fio de luz
que se desfaz na poeira
imagem de tudo o que se perde
quando o corpo insiste
em guardar o que já não cabe
e a vida se abre
num silêncio gasto.
Macau, 8 de Junho de 2026
quinta-feira, junho 04, 2026
Clivagem
rasga-se a noite
como um corpo dividido
entre o desejo e a ruína
há uma fenda no silêncio
onde o sangue escorre lento
e a memória se desfaz em cinzas
clivagem:
palavra que corta a pele
abre feridas na respiração
e deixa o coração suspenso
num abismo de vozes partidas
eu caminho sobre restos
procuro o lume breve
que ainda arde nos ossos
e me lembra
que viver é sempre
um corte profundo.
Macau, 4 de Junho de 2026
quarta-feira, junho 03, 2026
Embaciado
um sopro breve,
e o mundo dissolve-se em névoa.
As linhas da rua,
os rostos que passam,
tornam-se apenas manchas,
como se a memória fosse água
a escorrer devagar.
Embaciado,
o instante não se fixa:
é vapor que se levanta,
é silêncio que se repete,
é o contorno de um gesto
que nunca chega a ser inteiro.
E eu,
diante da superfície turva,
procuro o que resta —
um traço,
um reflexo,
um rumor de luz
que insiste em permanecer.
Macau, 3 de Junho de 2026
quarta-feira, maio 27, 2026
Bruma do tédio
Ai bolas, chove um sonho mal‑dizente;
A alma arrasta-se, trôpega e doente,
Entre suspiros, tretas e um mau fado.
O tempo, esse sacana, lento e amargo,
Rói-me a esperança, diabo persistente;
E eu penso: raios partam o presente,
Que tudo passa e nada fica em pago.
Ó vida, que chatice a tua dança,
Promessas vãs, conversa de tasca,
Um verso torto a rir da desgraça.
E nesta dor que em bruma se balança,
Digo asneiras ao vento que me lasca,
Só para ouvir a noite dar-me troça.
Macau, 24 de Maio de 2026
sexta-feira, maio 22, 2026
Chove em Macau
A tarde desfaz-se em cinza lento,
como um pensamento que não chega a ser memória.
Sob o abrigo gasto da paragem,
aguardo pelo autocarro;
eu, e o cansaço antigo das horas.
A chuva cai em fios de silêncio,
bordando o chão de reflexos mortos;
as luzes tremem, pálidas,
como lanternas vistas através de um sonho.
Tudo é espera.
O tempo escorre pelos telhados
e entra-me nos ossos
com uma saudade sem nome.
Passam rostos, sombras molhadas,
ninguém me vê.
Sou apenas mais um intervalo
entre a chuva e o destino.
Ah, Macau…
cidade suspensa entre águas e esquecimento,
onde até o coração aprende
a esperar sem esperança.
O autocarro tarda.
A chuva não.
Macau, 15 de Maio de 2026
quinta-feira, abril 23, 2026
O último jogo
fica suspenso o gesto que não regressa.
A relva, ainda marcada, guarda
o peso leve dos teus passos,
como se o tempo hesitasse em apagar-te.
Vicente, nome que ecoa baixo,
quase sussurro nas bancadas mudas,
onde o azul se torna memória
e o jogo se dissolve em ausência.
Há um silêncio mais denso que a noite,
feito de partidas que não escolhem hora.
E tu, agora distante,
permaneces no instante interrompido,
como uma bola parada
antes do toque final.
Macau, 17 de Abril de 2026
terça-feira, março 17, 2026
Macau não é cidade que se possua
Macau é um interstício do tempo, um palimpsesto vivo onde civilizações se entretecem em silêncio espesso.
Caminho pelas suas vielas como quem pisa sobre pergaminhos, escutando o murmúrio dos séculos que ali repousam, encobertos pela humidade do trópico e pelo labor invisível da memória. As fachadas, tisnadas pela maresia e pelo musgo, não exibem decadência, mas antes um testemunho silencioso de glórias que se recusam ao esquecimento.
Aqui, o Oriente e o Ocidente não se afrontam, antes se enlaçam com a delicadeza de um ritual antigo. Entre o aroma pungente do sândalo e o eco longínquo de um sino colonial, pulsa uma consonância frágil, quase imperceptível, que sustenta a alma da cidade; uma alma feita de contradição e permanência.
Macau expressa-se por entre línguas sobrepostas e símbolos cruzados; não se entrega ao olhar apressado, nem ao espírito superficial. Há nela um carácter litúrgico, uma solenidade sussurrada, como se cada esquina fosse altar e cada sombra um relicário. A sua essência revela-se nos interstícios: no claustro de uma igreja deserta, no interior sombrio de um templo taoista, na caligrafia descorada de uma tabuleta esquecida.
Não é cidade que se possua: é cidade que se consente.
Macau não se oferece ao forasteiro, impõe-lhe o silêncio, exige-lhe demora, convida-o a perder-se para que se possa encontrar.
É metáfora de si própria, um fragmento suspenso entre eras, onde o tempo não escorre, paira.
Macau, 20 de Maio de 2025